
“Hoje você é quem manda, falou, tá falado. Não tem discussão.
A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão…
Como vai proibir quando o galo insistir em cantar…
Quando chegar o momento esse meu sofrimento vou cobrar com juros, juro…”
Chico Buarque[1]
Em estados ditatoriais, a cultura e a informação são as primeiras a serem vilipendiadas. A informação se reinventa e resiste, mas a cultura sofre perdas profundas e, muitas vezes, irreversíveis.
O setor cultural já passou da hora de ser estruturalmente forte, por tudo que está contido nele e porque ele existe e sobrevive com, e apesar de, qualquer sistema político, econômico, religioso e social. Além de representar um PIB forte e de contínuo crescimento.
No Brasil, a palavra “cultura” evoca uma grande diversidade de entendimentos e atividades, podendo ser aplicada desde às mais conservadoras definições acadêmicas até às mais polêmicas atribuições político-sociais e de mercado. Uma colcha de retalhos difícil de cerzir.
Ao longo destes 30 anos dedicados ao setor cultural, apreendi que a maioria dos que dele fazem parte, mesmo ensimesmados em suas atividades e produções, busca um olhar para o coletivo e para o desenvolvimento humano. Muitos realmente acreditam que podem transformar o cotidiano em extraordinário, o detalhe em uma experiência e, acima de tudo, criar gestos que possam transformar e levar o indivíduo ao seu estado mais sublime da alma.
Talvez seja por isso que os que mergulham no fazer artístico sintam grande dificuldade para lidar com o sistema motor da sociedade, pois é baseado em conceitos capitalistas e de resultados, e que se mostra cada vez mais desumano, desagregador, preconceituoso, desinteressado pelos valores que não estejam vinculados a ganhos e, sobretudo, voltado a benefícios individualistas, tanto quanto imediatos.
“O que vai gerar a riqueza das nações é o fato de cada indivíduo procurar
o seu desenvolvimento e crescimento econômico pessoal”
Adam Smith[2]
Com esse pensamento, instaurando pelo criador do capitalismo, Adam Smith, grande parte da massa mundial passou a viver sob a perspectiva do indivíduo, mas de forma antagônica, do outro lado do mundo. Karl Marx, pouco tempo depois, elaborou o pensamento comunista, que estimula o ideal para o bem do coletivo. A polaridade, hoje, é dividida assim: individualistas e coletivistas. A arte está no coletivo, incondicionalmente, mesmo com seu processo sendo um mergulho no indivíduo… Mais antagônico do que isso, impossível!
Quando decidi migrar para o setor da cultura, em 1999, achei que estaria nadando de braçadas, pois me deparei com o inovador Marketing Cultural que instituía conceitos que eu conhecia através da minha origem profissional de 18 anos atuando nas áreas de atendimento e planejamento nas 3 maiores agências de comunicação da época: JWT, McCann e Ogilvy. Três grandes escolas, acima de tudo.
Dei de cara com as leis de incentivo que favoreciam (e escandalosamente ainda favorecem) o pensamento mercadológico e acreditei que o caminho estava aberto para o sucesso.
Mas não foi bem assim.
Demorei a entender por que havia tão pouca escuta ou entendimento por parte dos investidores. O processo foi complicado e fui entendendo cada vez mais que o tal Marketing Cultural era uma anomalia, já que “cultura” não se “marketeia”. Agora criaram outro nome: ECONOMIA CRIATIVA.
É simples verificar que as leis foram propostas claramente para favorecer a visão da produção e do investidor, sobrecarregando o produtor, o artista e o criador de todo o processo burocrático, de comprovações e lisura, contrapartidas sociais, além de ser permanentemente cíclico, ou seja, tudo é feito em um único ciclo de, no máximo, um ano. Sem dó, nem piedade.
Temos, agora, alguns novos dispositivos de manutenção mais extensiva, mas não para o médio e pequeno produtor cultural, que são a maioria avassaladora.
As experiências como produtora executiva de eventos nacionais e internacionais, e como educadora crítica para algumas centenas de alunos de várias partes do País, me possibilitam tecer algumas ideias pouco convencionais, mas talvez inspiradoras, diante de uma situação atual tão indefinida, especialmente com as mudanças tributárias que estão vindo por aí.
Vejo todo um setor que ainda está se recompondo de perdas incontáveis dos impactos da pandemia, junto com “aquele” governo inominável que não tinha qualquer condição no trato do assunto da cultura. Mas vejo, também, que por conta de nosso posicionamento histórico de produção individualizada, egóica e quase “misteriosa”, o meio cultural se mostra mais como indivíduos “diferenciados” e ainda muito pouco nos vemos como uma classe trabalhadora.
Esta classe já vem sendo retalhada economicamente há muito tempo, mesmo com todos os holofotes que iluminam o setor do entretenimento de grande escala. O aparente vislumbre de grandes shows e espetáculos escondem nas trincheiras milhares de trabalhadores e artistas açoitados pela força econômica e com ausência de apoio estrutural, cancelamentos de atividades, na maioria contratadas informalmente sob valores baixos ou que são escondidos sem recursos jurídicos, falta de continuidade dos trabalhos, falta de mecanismos de formalidade, entre outras mazelas.
Após milhares de reais e de eventos realizados nos 32 anos de Rouanet, por exemplo, ainda vemos um rastro de abandono setorial e de benefícios trabalhistas.
O novo normal exige um reposicionamento da forma como as atividades artísticas precisam se manter e se difundir, visando linearidade e estabilidade como estruturas empresariais eficientes ou de gestão coletiva, para deixarmos de viver projeto a projeto.
É hora de reposicionarmos nosso olhar sobre o próprio processo de trabalho.
Há anos o setor cultural joga a culpa de sua condição de desequilíbrio econômico na ignorância do povo e na ausência de políticas a favor da cultura, mesmo usufruindo de leis que atuam diretamente na triangulação entre o Estado, o uso de tributação pública e o relacionamento com o mercado investidor, que praticamente beneficia todas as áreas das artes, não necessariamente todos os artistas.
Rever as questões do setor e gerar uma nova consciência sobre sua subserviência a conceitos já ultrapassados, depende exclusivamente de um novo diálogo com o Estado, que nos mantém submetidos a condições ruins de trabalho, sem garantias, com limitantes processos contínuos de enriquecimento individualizados, com o MINC e a FUNART reféns das leis e sendo permissivo com o pensamento de resultados (quanto mais eventos, melhor), sem que as estruturas de organização e gestão das atividades da cadeia produtiva sejam fortalecidas.
Como disse muito bem Juan Leal, no seu artigo “Pandemia mostra: artistas não são vistos como trabalhador”, no site Insurgência[3], de 06.07.2020: “Temos apenas duas certezas: não há povo sem cultura e nada será como antes.”.
Portanto, agora, cabe a nós superarmos as conhecidas dificuldades e os prazeres irresistíveis do fazer artístico e passarmos a lutar por melhores condições de trabalho, benefícios sociais, de saúde, sustentabilidade e sobrevivência, pois viver exclusivamente de arte é o que todos queremos, e faremos o impossível para ouvirmos sempre o galo cantar!
BASEADO NO LIVRO “RESPEITÁVEL PÚBLICO, OS PRODUTORES DA CULTURA” de Annelise Godoy.
(em produção)
[1]Chico Buarque – Músico e compositor brasileiro – fragmento música “Apesar de Você” (1969/70)
[2]Adam Smith – filósofo escocês, denominado como o pai da Economia Moderna, fragmento do livro “A Riqueza das Nações” (1776)
[3]Insurgência
