Acredito que temos uma cultura de rótulos a partir de uma régua de qualificação interna do
segmento da cultura muito questionável e envelhecida, de certa maneira.

Ainda queremos enfiar produções de teatro/filmes/música/cinema em modelitos
chamados culturais, independentes x comerciais, na maioria das vezes partindo de uma avalição
subjetiva quanto ao seu sucesso, abrangência e até resultados de bilheteria ou lucro.
Somado a isso, uma estranha, e por muitas vezes arrogante, mania de definir o que é ou
não é de qualidade, com critérios misteriosos e super personalistas, burgueses, academicistas,
cansativos e regados de personalismo que tornam o resto, resto.
Realmente tem muita coisa ruim sendo feita por aí, com certeza. Ruim para mim. Até
porque não sou público para muitos desses conteúdos, por gosto ou até por falta de
conhecimento.
Mas há muito tempo percebi que essa “rápida e fatal classificação de qualidade” envelopa
alguns projetos com título de “comercial”, nomeado assim sabe-se Deus por quem.
Os premiados AINDA ESTOU AQUI e AGENTE SECRETO, ovacionados no mundo todo, aqui
são avaliados como chatos e sem graça. Musicais biográficos, que permanecem semanas no top
de venda de ingressos, são denominados como bobagem teatral. Música funk ou hip-hop, que
giram bilhões no mundo, são avaliados como o lixo do lixo cultural. Assim como as obras de
Romero Britto, que são vistas como de um absoluto mal gosto, mesmo que presente em centenas
de painéis públicos pelo mundo. Assim como a obra de Basquiat, que poderia ser vista como
horrível, mas, como vale milhões de dólares, não é, estou errada? Rótulos destrutivos e
convenientes, mesmo quando abrem portais gigantes de acesso global para os demais artistas.
Para mim, a construção dessas opiniões baseia-se invariavelmente em tristes
ressentimentos da classe artística (seja lá quem se inclua nisso), que foi treinada a viver cheia de
problemas financeiros (quanto pior, mais artista) até para justificar sua falta de entendimento dos
mecanismos para sua própria sobrevivência.
É preciso coragem para falar sobre esses dois polos antagônicos da cultura e do comercial,
ou entretenimento. Sem desmerecer a grande literatura, que trata conceitualmente do assunto,
trago aqui uma leitura simplista: CULTURA é produzida pelos artistas, diretores, criadores,
músicos, maestros e todos os envolvidos em uma atividade artística como expressão de suas
crenças, dentro de suas perspectivas e leituras da realidade e da arte que acreditam. Alguns
outros buscam a fórmula mágica da aceitação de sua produção.
Ou seja, enquanto estão debruçados no processo, estão promovendo cultura, seja qual for
o “tipo”. Afinal, quem somos nós para julgar?
Mas quando esses mesmos profissionais decidem levar suas obras/propostas/projetos
para apresentação ao público, saem de seus mergulhos criativos e passam a lidar com uma outra
cadeia de produção, com outros profissionais habilitados em outras áreas, como marketing,
assessorias de imprensa, captação de recursos etc. e, naturalmente, usufruem do mundo
comercial, do entretenimento ou da tal economia criativa, com mais ou menos sucesso, a
depender de suas próprias opções e condições.
Nesse momento deixa de ser artista para empreender, e nada é mais diabólico!
Assim, são classificados Cultura e Entretenimento na maioria dos países do mundo, não
como qualificações esdruxulas, mas pela atividade que executam.
Pode-se produzir desde o cinema pornô ao nouvelle vague, sem precisar ser excludente ou
competitivo, pois ocupam espaços e públicos distintos, ou até momentos distintos do mesmo
público.
Nosso insistente julgamento reduz nossas perspectivas e empobrece nossas
reivindicações para enfrentar o chão calcinado pelo verdadeiro mal.
A prioridade de entrega de recursos não é uma questão de gosto ou qualificação, é
generalizadamente política. Lembremos que nesse brasilzão a Política Cultural, em geral, é não ter
política cultural, para que o caminho esteja sempre aberto às aberrações e ao mal uso do recurso
público, ou para serem empregados em projetos artístico-políticos (federal, estadual e municipal).
A Política Cultural é que gosta de brincar de Deus, mesmo sendo o próprio cão tinhoso.
Ficamos cegos para os Diabos que só usufruem política e privadamente de nossos
recursos, pois o artista não tem limites e nem caixinhas para serem colocados.
Naná Vasconcelos e Glauber Rocha, por exemplo, obrigaram o mercado cultural e as lojas
de discos a criarem um título novo: o UNCLASSIFIEDs… Maravilhosos, únicos e potentes!
Verdadeiros deuses, como tantos outros.
O nosso foco deve ser lutar pela clareza das políticas públicas e pela garantia da
diversidade, e deixar que o povo decida. Ele tem poder!
Annelise Godoy
25 de março de 2026.
